“Heróis bandidos” é uma expressão que descreve personagens que atuam fora da lei, cujas ações são consideradas heroicas por parte de um grupo social, por vezes em resposta a injustiças percebidas no sistema.
Essa figura é frequentemente retratada na literatura, no cinema e em movimentos sociais, representando uma visão alternativa de heroísmo, onde a rebeldia e a transgressão podem ser vistas como formas de resistência.
O conceito de “banditismo social”, popularizado pelo historiador (Eric Hobsbawm, E., 1969), descreve indivíduos ou grupos que desafiam a ordem estabelecida, muitas vezes em nome de causas sociais, como proteção de camponeses ou luta contra opressores.
Exemplos históricos, no Brasil, o “Cangaço”, representado por seu líder “Lampião”, visto por alguns como um herói popular no Nordeste por desafiar o poder estabelecido, podem ser enquadrados nesse contexto?
Uma rede de TV, no seu streaming, exibi a novela “Guerreiros do Sol”, com fotografia e beleza plástica irreparável, retratando um seco, tórrido e caótico sertão brasileiro, a composição cinematográfica, denota o sertão de Graciliano Ramos (vidas Secas, 1938), de paisagens deslumbrantes e tórridas, onde animosidade, a fome, a falta de poder público, a ganância, a violência e as vinditas são o ápice da desordem, da imprevisibilidade e do gigantismo de referências populares mediadas por esse leque de heterogeneidade.
Um parêntese na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, vemos o sertão que não é um mero cenário, mas uma evidência de um ambiente hostil e marginalizado, um “corpo” de um cangaço que se torna protagonista da narrativa ao influenciar e oprimir as personagens em sua luta pela sobrevivência contra a seca e a miséria. A obra vivencia um sertão desmistificado, sem o romantismo do século XIX, mostrando o outro lado da natureza e o impacto da acidez da vida dos retirantes, como o personagem de “Fabiano” e sua família, que são transformados pela dureza do ambiente visceral.
Na novela romanesca, o Cangaceiro líder se nomina “Governador do Sertão”, governando o caos, o medo, as vinditas, o achincalhe, o arrebatamento de mulheres, o achaque, aos fazendeiros, a luta contra a polícia e o conluio com os nominados “coiteiros”, aqueles capazes de se adaptar a todas as situações, como parte de nossos políticos atuais, capazes de servir a todos os senhores que estejam de plantão e que surjam com as oportunidades, hora em um palco e hora em outros, sagazes e reluzentes como um leque multicor.
Registre a notável interpretação do ator (Irandhir Santos), que lidera a caçada a aquele Cangaceiro líder, personagem que representa o Estado em perseguição aos cangaceiros e a incursão de equiparar, como sempre polícia e banditismo, no qual ações se equivalem e os fins justificam os meios, fazendo do seguimento de segurança um apêndice e braço, dos mesmos valores, ética, decência, moral e ações. O que não é o todo da verdade.
A História, o cinema, a sociedade registram vários desses “heróis bandidos”, como o “Bandido da Luz Vermelha”, “Lázaro”, protagonista de uma caçada epopeica em Brasília, “Mineirinho” (1950-60), os “justiceiros” e atualmente, o fenômeno moderno dos “Influencers”, que orbitam e conduzem o mundo WEB, e que diversas vezes, são acusados por crimes, porém, idolatrados e mantem seguidores nas suas redes sociais de 10, 20 milhões de seguidores, que os aplaudem, os amam e oportunizam ganhar milhões em reais( sabe-se ser legal ou ilegalmente?)
Contudo, na nossa sociedade amoral, frágil e na capenga democracia representativa, dela eclodem esses heróis, e alguns descarados e escancaradamente descumpridores da lei, frequentadores das páginas policiais e recebem em suas casas frequentemente as visitas das “operações policiais” sob a égide de cometedores de inúmeros ilícitos, mas ano a ano, na eleição são aclamados e às vezes, empossados nos parlamentos desse país, são estes heróis contumazes dos banditismos?
A ideia de “herói bandido” questiona a noção tradicional de heroísmo, que geralmente associa o bem ao cumprimento da lei e à defesa da ordem. Estamos diante de um herói relativizado, despossuído de compromisso ético, de moral e do medo. Um herói que clama por “justiça”, aquela por ele, eleita e imposta, nos limites da violência, do medo e da indiferença social. Mas o que vale é ser um “fazedor de justiça social”. Algumas vezes, tirar, furtar, amedrontar, o mais aquinhoado, para dar aos mais despossuídos. Será?
Essa conduta nos leva a refletir sobre a relatividade da moralidade, vendo o que é considerado heróico ou criminoso pode cambiar, dependendo do contexto social, cultural e dos interesses depositados.
Ao objetivar a importância da justiça social, em situações de desigualdade e opressão, a rebeldia pode ser vista, de forma míope, como u modo de combater a injustiça.
Ao descortinar a complexidade desses personagens, os chamados: “Heróis bandidos”, frequentemente apresentam características ambíguas, com ações positivas e negativas, o que os torna mais próximos dessa realidade vivenciada por uma sociedade anômica, acéfala e em completa desordem legal e de gestão pública.
Nesse tipo de sociedade o que surge como protagonismo? O medo, a violência, a desordem, em um jogo, que nem sempre é de soma zero, mais de soma “positiva”, em relação ao que se quer protagonizar, seja aético, anormal ou amoral.
Mais uma vez, a expressão “heróis bandidos”, nos leva a questionar os limites do que é considerado heroísmo e a dialogar com a complexidade das relações entre lei, justiça e resistência social.
Essa falta de perspectivas de futuro que envolvem a vida das pessoas, conduzem os personagens a uma luta constante pela vida e por sua dignidade, contudo essa resistência, leva a uma marginalização dos personagens? Uma construção de uma nação brasileira, de gente oprimida, faminta, com medo, levam a adorar “heróis”, amorfos, que são vistos, como referência de resistência e dignidade humana, de forma equivocada?
O fenômeno do cangaço é repleto de particularidades brasileiras. Existiram atividades semelhantes em outros países, quanto à característica de grupos ou pessoas de origem pobre que cometiam crimes e viviam em fuga, mas eram revestidas de certo apoio popular e uma moral de combate aos mais ricos. As condições históricas, sociais e estéticas, contudo, são muito diferentes às do cangaço.
Concluo, perguntando, sobre a complexidade da figura de Lampião:
Lampião não pode ser facilmente classificado como herói ou bandido, pois suas ações e motivações são complexas e contraditórias?
Sua história reflete as tensões sociais e as injustiças do sertão nordestino, de então, onde a violência muitas vezes se misturava com a busca por justiça?
Lampião foi, ao mesmo tempo, um criminoso sanguinário e um protetor do povo, o que torna sua figura tão fascinante e controversa?
A resposta definitiva sobre se Lampião foi herói ou bandido é complexa e depende do contexto histórico e social em que sua história é analisada e vivida.
Assim, uma Justiça amoral: seria aquela que reproduz sem considerar as questões de certo e errado, bem e mal, aplicadas em outras esferas da vida? E a aplicação de regras que visam a um objetivo prático ou legal, sem que se questione sua conformidade com a mora?
Por Abelardo Inácio da Silva,
Mestre em Sociologia
Advogado Criminalista
Delegado de PC Aposentado.









