Gastos públicos e inovação tecnológica: o verdadeiro dilema brasileiro

Não é de quanto uma nação gasta. É em que ela gasta. Assistencialismo ou estímulo econômico? Vou tentar me haver e explicar nas frestas disto aqui. A recente contemplação do Prêmio Nobel de Economia de 2025 oferece uma lição que o Brasil não pode ignorar. Os economistas Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt foram reconhecidos por resolver um dos maiores enigmas da economia moderna: por que o mundo passou, nos últimos dois séculos, de longos períodos de estagnação para um crescimento contínuo e sustentado.

A resposta está na inovação. Segundo a Real Academia Sueca, as pesquisas dos laureados demonstraram que novas tecnologias, produtos e métodos de produção substituem continuamente os antigos – num ciclo de destruição criativa que eleva a produtividade, transforma setores e melhora o padrão de vida. Em outras palavras, o progresso nasce quando uma sociedade aceita reinventar-se. E isso é bom.

Da destruição criativa como motor da prosperidade – Desde Joseph Schumpeter, sabemos que o capitalismo se renova por meio da destruição criativa: o novo substitui o velho, o eficiente supera o obsoleto, o empreendedor desacomoda o burocrata.

Mas o que Mokyr, Aghion e Howitt mostraram é que esse processo depende de algo mais profundo: de instituições inclusivas e de uma cultura que valorize o risco, a curiosidade e o aprendizado contínuo. Onde há liberdade para inovar e confiança no futuro, o crescimento é sustentado. Onde há medo, rentismo e protecionismo, reina a estagnação.

O Brasil entre a inovação e a inércia – O nosso país vive um paradoxo. Possui capital humano criativo, recursos naturais abundantes e crescente maturidade digital – mas permanece preso a estruturas extrativistas e de curto prazo, como descreveram Daron Acemoglu e James Robinson em “Por que as Nações Fracassam”.

O Estado ainda consome mais de 40% do PIB com juros reais acima de 14% ao ano, sufocando o crédito produtivo e desestimulando o investimento em tecnologia. O resultado é uma economia de alto custo e baixo dinamismo, onde a inovação é exceção, não regra. Faltam instituições que incentivem o risco e protejam o mérito e sobram amarras burocráticas que desestimulam o empreendedorismo e o pensamento criativo.

A democratização da competência – O publicitário e estrategista Walter Longo resume bem a revolução que vivemos: “A novidade é a democratização da competência. Ferramentas antes exclusivas de grandes corporações estão disponíveis a qualquer empresa. A tecnologia potencializa a experiência humana, não substitui”.

Hoje, um pequeno negócio pode usar inteligência artificial para planejar, vender, comunicar e aprender em nível global. A inovação foi descentralizada. O desafio não é mais o acesso à tecnologia, mas à capacidade de usá-la com propósito, visão e sensibilidade humana.

Yuval Harari alerta que o maior risco não é a automação, mas a perda da vontade de sonhar. O perigo não está nas máquinas, mas em uma sociedade que se acomoda, que troca curiosidade por conforto e deixa de investir na educação como ponte para o futuro.

Inovação como política de nação – O Brasil precisa transformar a inovação em projeto de país, não em programa de governo. Isso significa investir de forma estruturada em educação científica, pesquisa aplicada, domínio de cadeias produtivas e empreendedorismo de base tecnológica. Significa criar instituições inclusivas que libertem o potencial produtivo da sociedade, eliminando o ciclo de dependência e privilégio que caracteriza nosso modelo atual.

O Nobel de 2025 confirma que o crescimento econômico sustentável é, acima de tudo, um fenômeno institucional e cultural: nasce da confiança coletiva em aprender e reinventar-se constantemente.

O verdadeiro debate: não é quanto o Estado gasta. É em que gasta – Aqui nasce o ponto de convergência com o lúcido artigo do engenheiro e empreendedor Jorge Santana, publicado aqui neste Portal JLPolítica & Negócio, sob o título de “Além do mito do Estado mínimo”.

Em tempos de polarização e simplificações rasas, Jorge traz uma reflexão essencial: o Estado tem papel insubstituível na promoção da justiça e da inclusão. Concordo inteiramente que o Estado não pode se omitir diante das desigualdades.

Mas o ponto central é outro: não se trata de diminuir o Estado, e sim de aumentar sua eficácia. Um Estado grande e ineficiente não é solidário. É apenas caro. Um Estado enxuto, mas funcional, é aquele que protege os vulneráveis com políticas sustentáveis, sem destruir as bases produtivas que o financiam.

O verdadeiro equilíbrio está entre compaixão e competência, justiça e eficiência. E é nesse ponto que a visão humanista de Jorge e a crítica fiscalista aqui defendida se encontram: o país precisa gastar melhor, não mais.

O exemplo da China e a lição esquecida pela esquerda – Nos anos 1980, a China era mais pobre que o Brasil. Quarenta anos depois, seu PIB saltou de US$ 150 bilhões para US$ 12 trilhões. O nosso, de US$ 200 bilhões para US$ 1,8 trilhão.

Eles começaram pela liberdade econômica. Nós, pela liberdade política – e nunca concluímos a transição. A China tornou-se uma democracia econômica. O Brasil, uma democracia hostil ao empreendedor.

O contraste mostra que prosperidade não nasce de expansão do gasto público, mas de liberdade econômica, disciplina fiscal e visão de longo prazo. Sim, insisto, o segredo não está no tamanho do Estado, mas em sua capacidade de estimular o investimento, premiar o mérito e transformar gasto em produtividade.

A hora do protagonismo social – Nenhum governo, isoladamente, pode conduzir essa transformação. Ela precisa nascer de uma sociedade ativa, unida e apartidária, capaz de pensar o país como um sistema produtivo e inteligente – onde empresas, universidades, startups e cidadãos se conectam em torno de uma mesma missão: fazer o Brasil produzir conhecimento, não apenas commodities.

A inovação é mais do que tecnologia: é um ato de cidadania. É o compromisso de cada geração com a próxima, para que o país avance de forma sustentável, justa e competitiva.

Portanto, e à guisa de conclusão, sustento que o mundo evoluiu porque inovou. O Brasil só deixará de ser o “país do futuro” quando colocar a inovação no centro do presente.

O caminho está traçado pelos vencedores do Nobel, pelos pensadores da nova economia e pelos empreendedores que acreditam que o conhecimento é o maior recurso natural de uma nação. “Inovar é criar futuro – e o futuro pertence a quem ousa construí-lo”.

Por Juliano César Faria Souto, administrador de Empresas graduado pela Faculdade de Administração de Brasília, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV, atua como sócio administrador da empresa Fasouto no setor atacadista, distribuidor e autosserviço, e é líder empresarial, exercendo, atualmente, o cargo de presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Atacado e Distribuidores – ABAD – e presidente do Conselho de Gestão do Lide Sergipe.

Fonte: JL Política & Negócios

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