Por que investir no cinema brasileiro vai muito além do entretenimento

Em 1946, a criação de um festival de cinema na França representou uma resposta ao avanço do fascismo na Europa. Surgido após a interferência de Hitler e Mussolini na Mostra de Veneza, o Festival de Cannes tornou-se um dos maiores eventos do audiovisual mundial. Mais do que uma forma de entretenimento, o cinema sempre ocupou um papel de destaque na construção de narrativas, na circulação de ideias e na afirmação de identidades culturais. Nesse contexto, ganha força a discussão sobre a necessidade de valorizar o cinema brasileiro.

Em um país de dimensões continentais e marcado pela diversidade cultural, o audiovisual nacional registra sotaques, tradições, conflitos, afetos e modos de viver que dificilmente aparecem com a mesma riqueza em produções estrangeiras. Para o publicitário e professor da Universidade Tiradentes (Unit), João Victor Torres, compreender a contribuição do cinema para a identidade cultural passa pela própria evolução da linguagem cinematográfica.

“Vamos pensar no neorrealismo italiano, que pegava o dia a dia das pessoas e transformava em algo poético, comovente. Ou no Expressionismo alemão, que ia lá no fundo dos medos e do inconsciente, de um jeito bem intenso, em uma Alemanha que vivia seu reflexo da guerra. No fundo, é isso: o cinema sempre teve esse papel de retratar a sociedade, de captar o espírito de uma época, os valores e a forma de pensar. As obras audiovisuais funcionam como um espelho social: permitem que uma população reconheça sua própria história e reflita sobre ela”, explica.

Muitos Brasis

Mesmo diante da predominância de produções internacionais no consumo audiovisual, João Victor acredita que estimular o acesso às obras brasileiras é uma maneira de fortalecer a identidade nacional. “É como beber água: nutrir o que é nosso. Valorizar o cinema nacional é irrigar nossas ideias, cultivar nossos valores, dar autonomia e força a essa identidade. Dentro do Brasil existem inúmeros Brasis, e isso precisa aparecer nas telas para o próprio brasileiro enxergar essa brasilidade plural, complexa, ramificada. E aqui entra um ponto fundamental do cinema: construir memória. Com esse ‘corpo’ sem memória, não há como manter viva a construção da nossa identidade”, afirma.

Retratar um país tão diverso exige diferentes perspectivas. Segundo o professor, o cinema é uma linguagem que expressa essa pluralidade por meio das imagens, das narrativas e das escolhas estéticas de seus realizadores. “O cinema é uma linguagem e, como toda linguagem, produz sentidos. Nesse contexto, o filósofo Gilles Deleuze defendia que os cineastas são pensadores capazes de traduzir conceitos em imagens. É por isso que conseguimos identificar a assinatura de diferentes diretores. ‘No caso de Kleber Mendonça Filho, por exemplo, existe uma linguagem que se repete e conecta filmes como Bacurau, O Som ao Redor, Retrato de um Certo Oriente e Aquarius. É a marca dele, o olhar dele, a gramática cinematográfica dele”, pontua.

Outro ponto levantado por João Victor é a necessidade de romper com a ideia de que o cinema brasileiro se limita a poucos estilos ou temas. “O olhar do brasileiro para o próprio Brasil ainda é marcado por limitações, preconceitos e estereótipos, reflexo, entre outros fatores, do pouco incentivo às produções nacionais e ao consumo dessas obras. ‘Os estereótipos embaçam a lente com que enxergamos o mundo. Superá-los é ampliar a forma de ver a realidade, compreender a história de uma região, valorizar uma cultura e potencializar o nosso modo de olhar”, afirma.

Além do entretenimento

Entre as ações voltadas à valorização do audiovisual nacional está a Tela Brasil, plataforma gratuita criada pelo Governo Federal para ampliar o acesso às produções brasileiras. Para João Victor, iniciativas como essa ampliam as oportunidades de aproximação entre o público e o cinema nacional. “Esses movimentos demonstram um amadurecimento da sociedade e precisam ser celebrados e amplamente divulgados. A janela para o cinema nacional já está aberta. Agora é preciso aproveitá-la, assistir às produções brasileiras, refletir sobre elas e tornar esse consumo um hábito natural. Assim como existem campanhas de incentivo à leitura, também deveríamos incentivar as pessoas a dar o play em um filme brasileiro”, diz.

O docente ressalta ainda que o cinema extrapola a função de entretenimento. “Entretenimento é só a camada mais rasa do cinema. O cinema brasileiro é campo de reflexão, ampliação de conscientização e ponte para realidades que estão distantes da nossa. Ele ajuda a furar bolhas e dissolver preconceitos. O cinema é um campo de movimento em todo o sentido”, ressalta. Segundo ele, em um contexto marcado pelo avanço da inteligência artificial, assistir a filmes também contribui para desenvolver uma habilidade cada vez mais importante: a capacidade de formular boas perguntas.

Economia criativa

Em uma economia baseada na circulação de investimentos, o fortalecimento da indústria audiovisual depende do aporte contínuo de recursos. “Para essa roda continuar girando, não há outra saída que não seja por meio de investimentos públicos, privados ou mistos. O cinema funciona como um ecossistema altamente conectado, capaz de movimentar diversas cadeias produtivas. Investir nessa área aquece outras subáreas da economia, gera oportunidades e fortalece todo o setor audiovisual”, reforça.

Os benefícios, porém, vão além dos aspectos econômicos. O cinema também contribui para fortalecer a cultura, a memória e a identidade de um país. Nesse cenário, as universidades assumem um papel estratégico ao atuarem como espaços capazes de observar as transformações do audiovisual e convertê-las em conhecimento, projetos e iniciativas que aproximem estudantes, pesquisadores e sociedade.

“Exige movimento sincronizado, de grupos multidisciplinares, esforços não só local, mas nacional mesmo. Ser antenado é estar atento ao que está acontecendo no mundo de ‘fora’, como essa abertura de streaming para filme nacional, por exemplo, e fazer um movimento de reflexão para entender de verdade como aproveitar isso, não só ficar noticiando o fato. Para ir ao segundo ponto de catalisador. E ser catalisador é pegar esse entendimento e transformar em prática: método, projeto, algo concreto que conecte a universidade com o que tá rolando ‘lá fora’, no sentido além dos muros acadêmicos”, conclui.

Fonte: Asscom Unit

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