Uma notícia falsa pode causar prejuízos financeiros, comprometer reputações e até interferir em decisões políticas. No entanto, quando a desinformação envolve temas relacionados à saúde, seus efeitos podem colocar vidas em risco. A disseminação de promessas sem comprovação científica, a desconfiança em relação às medidas de prevenção e o compartilhamento contínuo de conteúdos enganosos influenciam escolhas individuais e impactam diretamente a saúde coletiva, tornando esse fenômeno um desafio cada vez maior para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Com o avanço das plataformas digitais, qualquer conteúdo pode alcançar milhares de pessoas em questão de minutos. Nesse cenário, informações falsas frequentemente circulam mais rápido do que sua verificação ou desmentido. Na área da saúde, esse comportamento preocupa especialistas devido ao potencial de influenciar decisões da população. A médica e professora do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), Ana Jovina Barreto, explica quais tipos de desinformação têm aparecido com maior frequência.
“Conteúdos alarmistas ou sensacionalistas, compartilhados por profissionais influenciadores digitais, costumam gerar mais engajamento e acabam alcançando muitas pessoas. Muitas vezes esses profissionais não têm vinculação com sociedades científicas nem a qualificação adequada. São bons comunicadores e conseguem levar a desinformação adiante. Além disso, os algoritmos podem reforçar opiniões semelhantes, criando bolhas em que a desinformação se espalha com facilidade”, destaca.
Riscos coletivos
Uma das consequências mais evidentes desse cenário é a queda da cobertura vacinal em diferentes regiões do Brasil. Com menos pessoas imunizadas, doenças que já estavam sob controle encontram condições para voltar a se disseminar, colocando em risco tanto quem deixa de se vacinar quanto toda a população. “Doenças antes controladas podem voltar a circular, como sarampo e poliomielite, aumentando riscos individuais e coletivos. Isso aumenta internações, complicações, mortes evitáveis e sobrecarga do sistema de saúde. Também afeta especialmente crianças, idosos, gestantes e pessoas imunossuprimidas, que dependem da proteção coletiva”, alerta a professora.
Segundo a especialista, as fake news costumam ganhar força porque apelam primeiro às emoções e só depois à razão. “Informações falsas geralmente apelam para medo, insegurança ou desconfiança. Muitas vezes são apresentadas em linguagem simples, com relatos pessoais ou aparência de verdade científica. Além disso, quando confirmam crenças prévias da pessoa, tendem a ser aceitas sem questionamento e compartilhadas como forma de ‘alertar’ familiares e amigos”, alerta.
Letramento digital
Além do conhecimento sobre saúde, a professora ressalta que desenvolver competências para analisar criticamente informações encontradas na internet é um dos grandes desafios da atualidade. “O baixo letramento digital dificulta a avaliação da fonte, da data e das evidências apresentadas. Muitas pessoas não sabem diferenciar opinião de informação científica, publicidade de orientação médica ou sites confiáveis de páginas sem credibilidade. Isso aumenta a chance de acreditar em conteúdos falsos ou manipulados”, afirma.
Nesse processo, ela destaca que os profissionais de saúde desempenham papel fundamental na construção da credibilidade junto à população. “Profissionais de saúde têm responsabilidade ética de compartilhar informações baseadas em evidências científicas. Devem evitar alarmismo, promessas de cura e a exposição indevida de pacientes. No que diz respeito à publicidade médica, a Resolução CFM nº 2.336/2023 e o Código de Ética Médica estabelecem diretrizes claras sobre a divulgação de informações”, orienta.
Para quem recebe mensagens, vídeos ou publicações sobre temas de saúde, a recomendação é adotar uma postura crítica antes de repassar o conteúdo. “É fundamental verificar quem publicou a informação, se a fonte é reconhecida, se há respaldo de instituições oficiais ou estudos científicos, se a data é recente e se o conteúdo não utiliza linguagem exagerada ou alarmista. Também é recomendável consultar o Ministério da Saúde, sociedades médicas, universidades, agências reguladoras e profissionais qualificados”, recomenda.
Desafio permanente
Embora o SUS mantenha campanhas voltadas à conscientização da população e à imunização, a rapidez com que a desinformação se espalha cria novos desafios para a saúde pública. “Há necessidade de fortalecer campanhas educativas, capacitar profissionais, ampliar a presença em canais digitais e aproximar os serviços de saúde das comunidades. Mas entendo como um dos principais desafios a dificuldade de comunicação em um país tão grande quanto o Brasil, com públicos diversos e realidades muito diferentes”, observa.
Na avaliação de Ana Jovina, enfrentar esse problema exige ações permanentes que ultrapassem campanhas pontuais. “É fundamental fortalecer o vínculo entre as equipes de saúde e as comunidades, assim como entre profissionais e pacientes, porque a confiança é essencial para combater a desinformação. Campanhas claras e contínuas, presença ativa de profissionais e instituições confiáveis nas redes sociais, checagem rápida de boatos e comunicação acessível são medidas importantes. No entanto, para hoje e principalmente para as próximas gerações, considero que a principal estratégia é investir em educação em saúde e educação digital desde cedo, especialmente na escola. A escola deve ser o principal espaço de formação das crianças e adolescentes, assim como as universidades”, finaliza.
Fonte: Asscom Unit









