O Ano Novo nasce, mas estamos preparados para cuidar?

Entre a aceleração do tempo, a tecnologia e o esvaziamento dos rituais, o que revela a virada de um novo ano

O ano de 2026 está se aproximando; já está em gestação. Foram 12 meses de espera e ele se prepara para o parto. Está no útero do tempo. Toda gestação exige ruptura. 2026 nasce de um útero exausto, mas fértil. Chega vulnerável, dependente, exigindo responsabilidade. Não será um ano confortável. Será um ano definidor.

Como todo parto, ele revelará quem está preparado para cuidar da vida. Todo nascimento é real, com todo o seu esplendor, e promove a transformação do corpo da humanidade, ou seja, o nascimento da humanidade universal. Esse novo nascimento planetário nos convida à reflexão: o que queremos deixar para trás? Generosamente, a resposta se apresenta: cultivar a bondade no coração e desenvolver a compaixão transcendente.

Com a chegada do final de ano, a clássica canção de feliz ano-novo e adeus ao ano velho ecoa novamente. Também preciso dizer algo sobre as doações: ajudar aquela instituição que precisa do seu apoio, claro, desde que venha do coração. Sou daquelas que seguem a cartilha “não saiba tua mão esquerda o que faz a direita”, como está no Evangelho segundo Mateus 6,3. Isso significa elaborar uma ação generosa e discreta, sem o objetivo de ser vista ou de autopromoção.

Neste Natal que passou tão velozmente, a atenção parece ter se concentrado quase exclusivamente nas mensagens virtuais. A inteligência artificial está presente, cresce rapidamente, organiza imagens, frases e sentimentos em poucos segundos. Mas, nesse processo, algo essencial ficou pelo caminho.

Faltou o gesto humano da escrita. Saímos do letramento cursivo para o letramento digital sem perceber o que perdíamos juntos. Lembro da expectativa de receber um cartão de Natal físico: o papel, a caligrafia, as imagens escolhidas com cuidado. Não era apenas uma mensagem; era tempo dedicado, presença materializada.

As imagens produzidas pela inteligência artificial são perfeitas, porém, não são reais. Isso provoca uma pergunta incômoda: no Natal, aquilo que mais importa pode mesmo ser automatizado? Não perdemos o Natal; perdemos o tempo simbólico que nos ensinava a cuidar.

Na véspera da ceia de Natal , embora este texto esteja sendo escrito apenas no dia 25, assisti a uma reportagem sobre a corrida das pessoas para retirar encomendas de última hora. O que mais me chamou a atenção não foi o volume de encomendas, mas o comentário do dono do estabelecimento: o problema já não era a quantidade, e sim que as famílias estão menores. Esse detalhe aparentemente simples revela transformações profundas na estrutura familiar e nos nossos modos de viver, abrindo espaço para refletirmos sobre como essas mudanças impactam nossas relações, tradições e expectativas.

Há um ano escrevi um artigo sobre um vídeo em que uma pessoa registrou seu bairro e lançou um convite aos vizinhos, questionando: “Onde foi parar o espírito natalino na nossa comunidade?”. Ele pediu que todos decorassem suas casas, ao perceber que a magia do Natal estava se esvaindo. Também fiz o mesmo percurso pelo meu bairro e me surpreendi ao notar que apenas quinze apartamentos estavam enfeitados, mesmo morando em uma região com muitos prédios. Por mais surpreendente que seja, a circunstância se repetiu neste ano.

A saúde mental fragilizada, a correria desenfreada, o medo constante, a preocupação crônica e a insegurança coletiva se somam a tragédias estruturais como o feminicídio, ao envelhecimento acelerado da população, ao avanço da obesidade e à intensificação da vida digital. Esses fatores, combinados, não apenas marcaram o ano; eles nos imobilizaram. Ficamos engessados, reagindo mais do que refletindo. Ignorar essas pautas seria negligenciar sinais evidentes de um tempo que exige lucidez. O importante é avançar para a construção de alguma unidade possível, menos reativa e mais consciente.

É surpreendente como o universo conspira e oferece inspirações para a elaboração deste texto. Recentemente, assisti a uma entrevista com o filósofo Luiz Pondé e fiquei impressionada com a clareza de sua análise sobre os motivos que levam ao declínio do Natal. Segundo ele, as pessoas estão cada vez mais focadas na liberdade moderna e no progresso, o que acaba enfraquecendo os laços familiares e sociais. Surge, então, a pergunta: é possível reverter essa situação?

Vamos definir novos planos, objetivos e metas para o ano que se aproxima. E você, conseguiu alcançar suas metas neste ano? O encerramento do ano sempre nos convida a refletir sobre o que decidimos deixar no passado e, acima de tudo, sobre o que aspiramos nutrir no futuro. Algumas pessoas permanecem presas à estagnação e não conseguem encontrar motivação, necessitando de uma reflexão mais profunda sobre suas vidas. Revisar as experiências e eventos que marcaram o ano pode ser o primeiro passo para começar uma nova história.

O que será de nós daqui por diante? O futuro é incerto, mas já nos oferece um “spoiler” do que virá. Independentemente disso, nem tudo será perfeito. Vivemos na impermanência. O que precisamos é ser tocados e florescer. Aprender a reduzir a velocidade, nutrir conexões, valorizar o que é essencial e buscar maior harmonia e simplicidade, mesmo em meio a um mundo tão abstruso.

Que este seja o primeiro passo para uma jornada de transformação.
Feliz Ano Novo.

Moni Praddo é jornalista, colunista, curadora de arte, comunicadora e escritora apaixonada por palavras e encontros. Cronista e palestrante, também atua como terapeuta cognitivo-comportamental e musicoterapeuta formada pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Pós-graduanda em comunicação e semiótica pela Universidade Iguaçu (UNIG). Entre viagens, livros, pesquisas e eventos, sempre com um bloquinho na mão, busca compreender o mundo e, acreditando que a vida pulsa de forma coletiva. Ativista literária e ambiental, defende a escrita como ferramenta de transformação social e como ponte para tocar a alma das pessoas.

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