Entre promessas e ruínas, o segundo acordo entre Israel e palestinos expõe a fragilidade de um Oriente Médio cansado de esperanças quebradas.
Um acordo que nasceu sob aplausos e desconfiança
O segundo acordo de paz entre Israel e o Hamas, assinado em outubro de 2025, foi anunciado como um marco histórico. Mas a história, sempre irônica, logo mostrou que o que se firmou não foi a paz – foi apenas o silêncio das armas.
O primeiro acordo, em fevereiro do mesmo ano, havia sido uma farsa diplomática: Trump e Netanyahu o conduziram sem sequer convidar o Hamas à mesa. O resultado foi previsível – 67 mil palestinos mortos e Gaza em ruínas, com 90% de suas construções reduzidas a pó.
Líderes em queda, países em ruínas
Trump, ainda sonhando com o Prêmio Nobel da Paz, lavou as mãos:
“Israel está apenas se defendendo”, dizia.
Netanyahu, por outro lado, parecia movido por um propósito mais sombrio:
“Não deixar pedra sobre pedra na Faixa de Gaza.”
Ambos pagaram o preço. Suas popularidades despencaram – e, com elas, qualquer ilusão de heroísmo.
A ONU e o silêncio que grita
Na Assembleia Geral da ONU, em 29 de setembro, os Estados Unidos foram duramente criticados por sua neutralidade.
No fundo, o mundo sabia: somente Washington poderia conter o massacre.
Mas Trump aguardava algo mais valioso do que justiça – aguardava o momento do
aplauso.
O erro que virou pretexto
O ponto de virada veio com um erro. Netanyahu ordenou o bombardeio de um bairro no Catar, aliado dos EUA, acreditando que ali se escondiam líderes do Hamas.
O ataque provocou repúdio na Casa Branca e deu a Trump a chance perfeita de posar como pacificador.
Exigiu desculpas públicas e impôs um cessar-fogo imediato. Sem escolha, Netanyahu cedeu.
O novo encontro foi marcado para 9 de outubro de 2025, no Egito – e o mundo voltou a respirar esperança.
O espetáculo da paz
A reunião em Sharm el-Sheikh reuniu representantes do Egito, Catar, Turquia e EUA.
Trump declarou solenemente:
“Meu objetivo final é uma paz duradoura entre israelenses e palestinos.”
Khalil Al-Hayya, do Hamas, respondeu com fé:
“Recebi garantias de que a paz será permanente.”
Mas paz é palavra frágil quando escrita sobre cinzas.
As promessas
O acordo previa:
- Libertação de reféns, vivos e mortos, em etapas;
- Reabertura da fronteira sul de Gaza;
- Entrada de ajuda humanitária e retorno dos refugiados;
- Desmilitarização total do Hamas e perda de sua autoridade em Gaza.
Alaa Abd chamou o pacto de “presente dos céus”. Mas presentes celestes, às vezes, caem como meteoros.
O retorno que virou luto
Quando as tropas israelenses recuaram, milhares de palestinos regressaram. Voltaram a pé, em caminhões, carroças, segurando o que restara de suas vidas.
Mas encontraram apenas entulho e silêncio.
Uma mulher resumiu a tragédia:
“Eu sei que esta é a rua onde morava, mas não sei onde ficava minha casa.”
Foram 190 mil construções destruídas e 67 mil corpos sob os escombros – a herança.
do que se chamou de “acordo”.
A nova violação
O Hamas não conseguiu entregar todos os corpos prometidos, alegando que muitos estavam perdidos entre os destroços.
Netanyahu interpretou o fato como traição, acusando o Hamas de atirar contra tropas israelenses aquarteladas em Gaza.
No dia 19 de outubro, voltou a bombardear o sul de Gaza, proibindo novamente a entrada de ajuda humanitária. A liderança do Hamas respondeu dizendo que não atirou e que possivelmente civis palestinos revoltados por perder seus entes queridos e tudo que possuíam revidaram contra as tropas. Netanyahu , sem provas concretas, recuou. O cessar fogo continua e as fronteiras foram reabertas.
Dez dias depois, recuou novamente.
Mas a ferida, uma vez aberta, não cicatriza com diplomacia.
Trégua, não paz
O que se firmou no Egito foi apenas uma trégua provisória – o tipo de paz que se escreve a lápis, pronta para ser apagada pelo primeiro tiro. Israel continua negando a criação de um Estado Palestino com capital em Jerusalém Oriental.
O Hamas continua jurando resistência.
E o mundo continua assistindo, dividido entre a compaixão e o cansaço.
Cinco séculos de ódio não se resolvem com uma assinatura.
Talvez nunca se resolvam.
Mas é curioso: ainda chamam isso de paz.
Epílogo
A diplomacia pode calar os canhões – por um tempo. Mas não há acordo capaz de silenciar o desespero de um povo que já perdeu tudo, nem discurso que devolva vida ao que foi soterrado.
Por ora, o que resta é o eco das promessas – e a certeza de que a humanidade continua negociando trégua com a própria consciência.
Por Prof. Marcos Antonio de Moraes









