
Elaine Bomfim é artista visual, ilustradora, artesã e arte-educadora. Graduou-se em Licenciatura em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, 2005) e concluiu pós-graduação em Arte-Educação pela Faculdade São Luís de França (FSLF, 2012).
Sua trajetória nas artes começou em 2000, no grafite e na pintura mural, integrando a cena urbana de Recife (PE). Desde então, desenvolve um trabalho marcado pela presença do feminino e pelo diálogo entre a cultura popular e referências globais. Essa pesquisa estética rendeu participações relevantes, como a seleção para a edição especial do icônico calçado Melissa – Street Girls Gallery, da Grendene.
Como ilustradora e escritora, publicou por editoras como Bagaço e Construir, além de projetos independentes. Suas obras já circularam em exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, passando por países como Áustria, Suécia, Alemanha, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Peru.
Atualmente, além de atuar como professora de artes nas redes públicas estadual e municipal de Sergipe, mantém um ateliê na Barra dos Coqueiros (SE), onde se dedica a narrativas poéticas que atravessam o bordado contemporâneo, a gravura, a fotografia, a ilustração e a escrita.

Na coluna de hoje, trago uma entrevista com a artista plástica Elaine Bonfim, cuja trajetória é marcada pela sensibilidade e pela busca constante por novas formas de expressão. A seguir, o leitor acompanha a conversa que tive com a artista sobre seu trabalho, suas inspirações e sua visão da arte
Moni Praddo – Como e quando você percebeu que queria trabalhar com arte e por que o bordado, a fotografia e a gravura se tornaram partes centrais do seu fazer artístico?
Elaine Bomfim – Sempre gostei e lia sobre história da arte, então fui estudar arte na universidade. A partir disso fui me envolvendo em atividades artísticas, por meio de coletivos de arte, até sentir segurança para seguir carreira solo de artista. A pintura foi minha primeira paixão e meio principal do meu fazer artístico, mas com o tempo vamos tendo experiências que nos transformam, fui encontrando prazer em práticas antigas, como o bordado, e conseguindo relacionar isso com as demais linguagens, como a fotografia e a gravura. Na fotografia me atrai o registro, e na gravura, a textura. Em ambas, me interessa as marcas do tempo que essas linguagens revelam.
Moni Praddo – De que modo sua formação (educação artística, especialização, experiências) moldou as escolhas técnicas e estéticas que você faz hoje?
Elaine Bomfim – Eu comecei a estudar arte e a conhecer pessoas que tem o mesmo interesse que eu na universidade, então essa foi uma experiência fundamental p mim. Gosto de ler e entender a arte também por meio da pesquisa, e isso o meio acadêmico oferece.
Moni Praddo – Como seu convívio com artesãs da Barra dos Coqueiros influencia seu processo criativo? Quais aprendizados e trocas você considera mais significativos?
Elaine Bomfim – A convivência com as artesãs foi fundamental para eu renovar minha prática artística e entrar na segunda fase do meu trabalho, quando eu deixo a pintura para explorar distintas relações com a matéria têxtil. Também é um meio diferente do acadêmico, também traz aspectos distintos até mesmo do meio artístico mais convencional, e isso só faz ampliar horizontes e arejar ambientes. Passei um tempo expondo em feiras de artesanato com elas e isso me transformou. Hoje vou mais a feiras literárias, e não vejo diferença. Todo mundo quer vender seu peixe.
Moni Praddo – Quais são suas principais referências (artísticas, culturais, pessoais)? Há artistas ou artesãos que você admira particularmente?
Elaine Bomfim – São muitas. Rosana Paulino, Joana Vasconcelos, pra citar as que tratam com a matéria têxtil. Gosto de todas as artes, do artesanato ao cinema, passando pela literatura. Todas me influenciam. As artistas Grada Kilomba, Cildo Meirelles, pela multidisciplinaridade. Vou nem citar escritores, leio muito. De Sergipe, admiro Fábio Sampaio, Veio, Débora Arruda, Luan Dias.
Moni Praddo – Que papel você enxerga para o artesanal e para o valor do “feito à mão” no contexto contemporâneo, em que a tecnologia e a produção em massa dominam?
Elaine Bomfim – O papel de acolher e preservar nossa humanidade diante de tantas autogeradas ameaças ao nosso equilíbrio e existência enquanto espécie. Acho que o fazer a mão é, mesmo que simbolicamente, o terreno do humano, do enquanto há vida há esperança, do eu consigo apesar de tudo, está em minhas mãos. Talvez seja uma utopia.

Moni Praddo – Você trabalha com fotografia em tecido, bordado contemporâneo, gravura, como você vê a intersecção entre essas linguagens no seu trabalho? O que cada uma traz de singular?
Elaine Bomfim – Com essas linguagens trato de representar a memória, a passagem do tempo, as camadas e marcas de cada história construída com base em fatos e em imprecisão. O bordado é tradição e renovação, a fotografia é fato e invenção, a gravura é marca e continuidade por meio da reprodução.
Moni Praddo – Memória, afeto, presença/ausência são temas recorrentes no seu trabalho. Como você enxerga que seu trabalho contribui para preservar ou renovar essas memórias?
Elaine Bomfim – Eu trato justamente da construção de histórias pessoais que ressoam coletivamente por meio de elementos factuais e de elementos inerentes a qualquer história, as imprecisões da memória, as coisas que faltam, que desapareceram, que não foram encontradas e deixam lacunas irreparáveis e que por isso exigem reordenamentos frequentes. Cada obra minha é uma frase, uma palavra, um parágrafo, um ponto.
Moni Praddo – O que espera provocar no público com essa exposição? Que tipo de sensações, reflexões ou diálogos você gostaria que as pessoas tivessem?
Elaine Bomfim – Espero provocar histórias, memórias. Que as pessoas saiam na boca com uma história (re)lembrada após ver a exposição. Que as pessoas se sintam em casa e acessem suas mesmas histórias. Que se sintam criativos e com vontade de fazer algo por si mesmos e com as próprias mãos.
Moni Praddo – Como a cor, textura, escala (tamanhos das peças) influenciam o sentido das obras para você?
Elaine Bomfim – As obras grandes nos impactam fortemente, mas as obras pequenas nos forçam a nos aproximar, a chegar perto e nos surpreendem. Arte se trata de criar sentido por meio do sensorial, então cores e texturas contam parte da história que precisa ser dita. Todo o conjunto de obras fala da história que escrevemos no dia a dia, do legado do cotidiano, e esses materiais são parte desse legado.
Moni Praddo – Após essa exposição, quais são seus próximos projetos ou séries planejadas? Há algo novo que possa já nos adiantar?
Elaine Bomfim – 10. No dia 10 de dezembro estarei abrindo uma exposição individual, UMA SENHORA XÍCARA DE CAFÉ, na Galeria de Arte do SESC, a galeria Cícero Alves dos Santos. Estou lançando meu mais recente conjunto de obras, Novelos ao Mar, cujo livro sai ano que vem. Algumas das obras de Novelos ao Mar estão nessa exposição, Recortes Bordados, e na Galeria Ces Arts, com a exposição ONDE OS SONHOS POSSAM DESCANSAR. Estarei no FASC no dia 23 de novembro exibindo meu filme CANCIONEIRAS – EMBARCAÇÕES POÉTICAS. E participo da antologia ENTRE PALAVRAS E MARÉS: VOZES FEMININAS, da Ajeb-BA, com o conto Cancioneiras, sendo lançada agora em novembro durante encontro da AJEB-BA.
Exposição: Elaine Bomfim
Local: Centro cultural de Aracajú
Data: 03 de outubro de 2025
Horário: 19 h

Moni Praddo é jornalista, colunista, curadora de arte, comunicadora e escritora apaixonada por palavras e encontros. Cronista e palestrante, também atua como terapeuta cognitivo-comportamental e musicoterapeuta formada pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Pós-graduanda em comunicação e semiótica pela Universidade Iguaçu (UNIG). Entre viagens, livros, pesquisas e eventos, sempre com um bloquinho na mão, busca compreender o mundo e, acreditando que a vida pulsa de forma coletiva. Ativista literária e ambiental, defende a escrita como ferramenta de transformação social e como ponte para tocar a alma das pessoas.









